
Há alguns meses atrás minha irmã me chamou para ir com a turma dela no Pico da Bandeira, localizado no Parque Nacional do Caparaó, há 60 km de Manhuaçu. Como nunca tinha ido, mesmo morando tão perto, não pensei duas vezes antes de aceitar. Partimos às 11:30 do sábado (28/07/07) com destino àquela grande aventura. Chegamos à portaria do parque aproximadamente às 13:00 e éramos um grupo de nove pessoas. Subimos 6 km com o jipe até a tronqueira, local onde o pessoal costuma acampar e último local de acesso com veículos motorizados. Pegamos nossas mochilas, colocamos nas mulas e caminhamos 4,5 km por trilhas até o terreirão, último local para acampar antes do Pico, a 2370 m de altitude. Chegamos ao terreirão por volta de 15:30, onde armamos as barracas e fomos logo preparar nossa alimentação. Estávamos exaustos pela longa caminhada por trilhas íngremes e pelo longo tempo sem alimentar. Após isso fomos tirar algumas fotos das paisagens e da nossa turma. Esse período que passamos no acampamento antes da noite, foi muito legal. Tinha em média umas 50 barracas espalhadas pela área de camping. Conhecemos e encontramos pessoas de nossa cidade e de outros vários lugares. Era praticamente uma comunidade alternativa, separadas por turmas, clãs e tribos. As 17:40 pude ver e filmar o maravilhoso por do sol, sobre aquele lindo mar de nuvens entre montanhas. No entrar da noite via-se rodas de bate papo, de churrascos e de músicas ao som de vozes e violão. Todos muito animados.
Lembro-me quando estava a minha turma deitada, descansando para a grande subida, quando passou um garotinho correndo e gritando: “Zerou! O termômetro zerou!” Está fazendo zero grau! Só vi algumas pessoas saindo de dentro de suas barracas. Eu era uma delas. Isso era 21:15 da noite. Após esse momento, algumas pessoas prepararam sua alimentação no fogareiro, e após isso tentaram em vão descansar definitivamente, uma vez que um dos grupos estava cantarolando em alto e bom som. A partir das 23:00 quase todos já haviam ido deitar, somente um ou dois grupos que insistiam em ficar acordados em rodas para esperar a hora de partir para o cume do Pico. Tentei dormir, mas consegui apenas tirar alguns cochilos. Durante todo o dia e noite olhávamos para o céu, pois só poderíamos subir caso o céu estivesse limpo e sem perigo de chuvas. Por várias vezes o céu ficou nublado e outras muitas, limpo, aumentando cada vez mais nossas expectativas. A lua estava cheia e linda, clareando todo o acampamento, sem precisar em alguns momentos clarear com a lanterna por onde andávamos.
Às 2:00 a grande maioria estava acordada se preparando e preparando os outros para a subida. Eu estava com uma luva, quatro meias, dois gorros, três blusas de frio e três calças. Minha irmã disse que não iria subir, pois estava com dor de cabeça. Às 3:00 partimos em direção ao cume. O céu estava limpo e estrelado. Tudo mostrava que ia ser perfeito o nascer do sol.
Éramos quatro que íamos subir pela primeira vez ao pico e mais outras pessoas que todo ano sobem. Estávamos ansiosos para saber o que nos esperava lá em cima. Tínhamos que subir 4,5 km, e em subidas cada vez mais íngremes. Durante a subida o clima foi mudando. Aquele tempo gostoso e friozinho foi ficando cada vez mais instável. Foi formando uma pequena névoa e um ventinho que nos dava arrepios. Fomos colocando mais agasalhos e bebendo “choconhaque”, para aquecer. Pensamos que aquela névoa ia passar, mas ao contrário: aumentou cada vez mais e se transformando em um chuvisco e engrossando até formar uma grossa chuva. Assim também foi o vento, de uma leve brisa, se transformou num vento forte. As gotas de água gelada juntamente com o vento, iam batendo em nossos rostos, como se fossem alvejados por pedras, tão grande era a dor que sentíamos. A subida estava cada vez mais difícil, cada vez mais íngreme e, como se não bastasse, chovia. Sabíamos que não ia ser nada fácil chegar e ficar no cume esperando o sol nascer. Estávamos preparados mental e fisicamente para o frio e o vento, mas não para a tempestade. Após uma difícil subida e debaixo de uma forte chuva e ventania, finalmente chegamos aos pés do Cristo fixado no cume, a exatamente 2892 m de altitude. Era exatas 5:00. Só dava pra ver pequenos grupos amontoados em blocos para tentar fugir da ventania e da chuva. Fizemos a mesma coisa: aglomeramos-nos numa pequena fresta entre a rocha e a terra e tentamos com o cobertor nos cobrir. Tentávamos ficar o mais próximo um do outro e compartilhar o calor de nossos corpos. Os dedos das mãos e dos pés já estavam doendo. Ficávamos respirando por debaixo da coberta para aumentar o calor. Nessa hora ouvi uma pessoa gritar: – “Está dando -4°!”. Não acreditava no que tinha ouvido. Começou aí nosso sofrimento que duraria um bom tempo. Tremíamos, senti dores como nunca havia sentido. Ficamos imóveis tentando nos aquecer. Lembrava o que minha mãe havia me dito quando lhe dissera que iria subir ao pico, e pensava se estaria no dia seguinte em casa naquele mesmo horário.
Quando foi 6:00 o instrutor que estava com a gente, disse para irmos para o lado de cima do cume, pois em instantes, às 6:19, o sol iria nascer. Como foi sofrido esse momento de subida em direção ao outro lado. Estava ventando muito forte e a chuva nos alvejava o rosto, e doía como laminas cortando a carne. Nossos ossos pareciam estar trincando de tanta dor. Entramos entre duas rochas e ficamos cada vez mais unidos segurando o cobertor que o vento insistia em nos tirar. Estava muito mais frio e ouvíamos o barulho das juntas duras pelo frio, quando mexíamos as mãos e os pés para circular o sangue. O vento, segundo o instrutor, estava a 75 km/h. O frio era tão grande que não só eu, mas todos os que estavam lá em cima, já estavam se acostumando com a idéia de que não agüentaríamos mais. Vi a morte de frente, mas mesmo assim pedi a Deus (a) que não deixá-se eu partir e agradeci por minha irmã ter ficado no acampamento e não ter que passar pelo que eu estava passando. Perguntava por que sofria tanto daquele jeito. Por várias vezes tive vontade de chorar por causa da dor, do medo, e daquela agonia de não saber o que iria acontecer com a gente. Nunca senti tanto sofrimento na minha vida. Nossa esperança era que o sol nascesse para nos aquecer, mas foi em vão. O frio não cessou.
Já às 7:10, o instrutor nos aconselhou a descer, pois o sol já havia nascido, e se ficássemos ali, íamos morrer congelados, mas nos aqueceríamos com o movimento na descida. Quando saímos do meio das duas rochas, aquela chuva junto ao vendo, que nos chicoteava o corpo e que nos tirava o cobertor, dificultava também nossa caminhada, de tão forte que estava. Já não sentia os dedos dos pés e das mãos. Parei por um instante e tirei minha luva, imaginando que veria meus dedos e unhas roxos. Fiquei mais calmo quando vi que ainda estavam normais. Aquela passada de onde estávamos até a descida do cume, também foi terrível. Durante o tempo que passamos lá em cima, não dava pra ver 5 m a frente por causa da neblina e chuva. Assim que começamos a descer escutei uma pessoa que estava de posse de um termômetro reclamar do frio. Segundo ele, a temperatura chegou a -8° naquela dura madrugada. É fato ainda que a sensação térmica pode chegar a 5° a menos que a real quando venta. Então entendíamos o porquê tínhamos sentido tanto frio: com aqueles fortes ventos, a temperatura que sentíamos era em torno de -13°, se não for pra menos por causa da grossa chuva. Algumas pessoas que foram ao pico várias outras vezes, como por exemplo, o instrutor que estava com a gente, nunca viram tal fenômeno como aquela madrugada. Já tinham enfrentado temperaturas de -16°, mas aquela tempestade e ventania, nunca tinham visto igual.
De pouco a pouco, a chuva e o vento iam se amenizando, podendo finalmente nos aquecer com os movimentos da descida. Podia se ver sobre as toucas, uma fina camada de gelo. Quando faltavam uns 3 km para chegar ao terreirão (acampamento), o poderoso sol saiu limpando todo o céu e também nos aquecendo. Podíamos ver lindas paisagens: montanhas e vales verdes. Pena que não pude parar e tirar foto. Daí, pude ver, pensar e reconhecer o quão maravilhosa, poderosa e ao mesmo tempo severa era Gaia.
Na descida pude notar o cansaço estampado no rosto de cada um pelo sofrimento, dor e frustração de não ter visto o mais lindo fenômeno do Pico da Bandeira: ver o sol nascer lá em baixo por entre montanhas e por cima de um mar de nuvens, formando a mais bela imagem. Fico pensando: ir ao Pico da Bandeira e não ver o sol nascer, é como ir à Praça de São Pedro num domingo e não assistir ao Ângelus dado pelo Papa, para um católico. Não faz sentido. E mesmo assim, estávamos felizes por ter agüentado e sobrevivido àquela terrível experiência.
Talvez julgue exagerada essa narrativa, mas só entende o que passei e senti quem passar pela mesma experiência.
Chegamos ao terreirão por volta de 8:40, debaixo de um forte sol. Como foi bom ver e abraçar minha irmã. O pessoal já estava desarmando acampamento para descer. Desarmamos também nossas barracas, fizemos nossas mochilas, lanchamos e tiramos algumas fotos para recordar aquele dia.
Quando estava tudo pronto, descemos para a tronqueira, aonde o jipe iria nos pegar. Saímos do terreirão sobre forte sol, e chegamos à tronqueira por volta das 10:00 e coisa alguma, entre densa névoa e céu fechado, que pouco depois se transformou numa leve chuva. O jipe estava marcado para 12:00. Nesse ínterim, enquanto esperávamos, aproveitamos para fazer um lanche e cozinhar alguma coisa para ao almoço. Conversamos com pessoas de variadas cidades e regiões que também estavam lá em cima. E todos, que tinham ido até o cume, tinha a mesma opinião. Que nunca tinham passado tanto aperto como naquela noite. Quando perguntei se iriam voltar ano que vem, as respostas eram as mais diferentes. Um disse: “Deus que me livre! Eu nunca mais volto nesse lugar!”. Outro: “Já sofri demais para uma vida”. E um: “Sim, mas vou voltar mais bem equipado”.
O jipe chegou, nos despedimos dos outros e voltamos para a porteira do Parque Nacional, onde a vã já nos esperava. Tiramos algumas fotos para fechar nossa aventura, e finalmente partimos exaustos para casa.
E nós, o que faremos ano que vem? Eu pretendo voltar, e poder ver aquilo pelo qual, em vão, fui motivado a passar por tudo isso: O sol nascer.
Fica assim então, grande abraço, e Felicidades
Thiago Emmerich